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Extermínio #5 – Cruzando a linha – Parte 2

18 DE FEVEREIRO DE 1973
- Isso é loucura – Disse Rodrigo, se levantando – Você é louco.
- Você também os viu, os homens voadores – Disse João, mantendo-se calmo.
- Mas o governo?
- No momento a guerra é entre Estados Unidos e União Soviética. Mas quanto tempo você acha que essa guerra vai ficar restrita a esses dois países? – João fez uma pequena pausa e retomou – Essa guerra não é igual às ultimas. Essa é uma guerra puramente ideológica. O pior tipo. Você ainda não era nascido, mas no fim dos anos 40, com o fim da 2º guerra mundial estas duas potências travaram uma acirrada corrida armamentista. Quanto tempo você acha que elas vão demorar para usar estas armas? É isso que o nosso governo teme. Ser pego desprevenido. E como bons militares que são, não ficaram de braços cruzados. A guerra que está acontecendo no Vietnã só os fez acelerar o processo.
- Isso é loucura.
- O que esperava sobre algo envolvendo homens voadores?
- Mas se isso que você falou é verdade, eles querem apenas nos proteger.
- A intenção inicial era essa, mas sempre surge uma idéia secundaria que substitui o objetivo inicial. Os militares no poder viram no meu soro a chance de criar super-soldados que lhes dariam uma incrível vantagem estratégica sobre seus próprios inimigos. Países com quem mantivemos antigas desavenças estavam no topo da lista. Acredita que o Paraguai será o primeiro alvo? Tudo por causa da Guerra do Paraguai em meados do século 19. Tenho certeza de que você estudou sobre isso na escola. Aconteceu há mais de cem anos e eles ainda querem se vingar, mesmo tendo vencido a guerra. Os militares são os piores, eles não esquecem, nem perdoam.
- Nós vamos atacar o Paraguai? – Rodrigo mal piscava os olhos.
- Ainda deve demorar alguns anos. Criar um exército de super-soldados leva certo tempo. Quando eu saí do projeto, a formula ainda precisava de melhorias.
- Eles deixaram você sair assim? Sem mais nem menos?
- Hahahahaha – João gargalhou, assustando Rodrigo – Eu fugi, garoto. Quando eu descobri a verdadeira intenção deles, eu saí e não voltei mais. Destruí o que pude antes de ir embora, mas no estágio em que a pesquisa está, eles não precisam mais de mim. Mas eu preciso ter cuidado, agora. O projeto é secreto e como eu sou o desenvolvedor da formula, represento certo risco a eles. Tenho feito pesquisas escondidas, em laboratórios improvisados. Preciso me mudar constantemente para eles não me acharem.
- E o que você está pesquisando agora? Um meio de dete-los?
- Exato. Isso não pode seguir em frente, entende? Eu não vou conseguir agüentar a culpa de ter criado algo responsável pela morte de milhares de pessoas. A fórmula era para ser usada para salvar pessoas e não exterminá-las como simples baratas – João colocou as mãos no rosto, parecendo esconder o choro.
- Você… Você disse que eu podia ajudar.
- Na verdade, eu disse que podia ajudá-lo. E ao mesmo tempo você me ajudaria a evitar este desastre.
- Como?
- Eu quero lhe mostrar uma coisa. Espere aqui – João se levantou, foi até a gaveta e de lá tirou um rolo de filme, que encaixou no projetor. Ao apertar um botão uma luz saiu do aparelho e Rodrigo ouviu o som do rolo de filme sendo rodado. Uma imagem surgiu na tela branca que estava na parede – Eu quero que veja isso.

Não havia som. Eram apenas imagens em seqüência. Rodrigo reconheceu João no filme e ele injetava algo no braço de um homem, que parecia desmaiado numa mesa de metal. Seus braços e pernas estavam presos por braceletes metálicos que por sua vez estavam presos à mesa. Não havia mais ninguém na imagem. Alguns segundos depois o homem começou a se contorcer violentamente, até que simplesmente parou e ficou novamente imóvel. Neste instante a imagem desapareceu. João acendeu as luzes e caminhando em direção a Rodrigo, disse:
- Sabe? Meus pais também foram assassinados. O assassino nunca foi encontrado. Eu não tive a chance de me vingar. Não posso mudar isso. Mas posso ajudá-lo a vingar a morte de SEUS pais. O homem que você viu nestas imagens é o mesmo homem que você viu voando na noite em que seus pais foram mortos. Ele é o responsável pela morte de seus pais – Rodrigo olhava para João mal acreditando no que ouvia – E então? Você quer vingar a morte de seus pais?

XXXXX

HOJE
As mãos de Rodrigo começaram a tremer e seu braço direito começou a formigar. “Agora não. Agora não” pensou, pegando um frasco laranja de remédio de seu bolso e tomando dois comprimidos. Fechou o frasco e voltou a colocá-lo no bolso. “Estão ficando mais constantes”. Mas não podia se preocupar com isso agora. Havia coisas mais importantes para se preocupar. Na sua frente, um detetive colhia seu depoimento. Na sala, Jonas falava o que havia acontecido para outro policial, enquanto outro falava com Martha.
- Senhor Pompeu? – Chamou o detetive que colhia seu depoimento, preocupado – O senhor está bem? Podemos chamar um médico.
- Não, não. Eu estou bem, é só que, descobrir que meu filho foi seqüestrado me deixou meio nervoso. Estes remédios são para relaxar. Só isso. Mas e meu filho? O que podemos fazer?
- Bom, provavelmente os seqüestradores farão contato para pedir o resgate. Considerando sua fortuna, eu apostaria nisso. Vamos reunir informações com todos os envolvidos, principalmente na escola de onde seu filho foi levado. Mas agora vocês precisam manter-se calmos e esperar o contato dos seqüestradores. Vamos manter dois policiais de prontidão. Um ficará do lado de fora da casa e o outro, se o senhor permitir, ficará dentro da casa para sua segurança e de sua família.
- Não, prefiro que os dois fiquem do lado de fora. Qualquer problema chamaremos, mas minha família precisa de privacidade neste momento.
- Certo – O detetive virou para um policial que estava na porta de entrada – Nogueira, vem cá – O policial se aproximou – Nogueira, quero você e Sérgio de prontidão do lado de fora da casa. O senhor Pompeu prefere deste modo. Não quero ninguém saindo desacompanhado e sem visitantes até acharmos o garoto, ok?
- Positivo, senhor – O policial deu uma rápida olhada em Rodrigo e voltou para a porta de entrada, puxando um policial para seu lado.
- Tudo certo, senhor Pompeu – Continuou o detetive – Assim que tivermos qualquer novidade entrarei em contato no mesmo instante, certo? Mas preciso que você nos ajude, ok? Os seqüestradores vão pedir para não envolver a policia, e em grande número de vezes as vitimas aceitam este pedido. Eu quero deixar bem claro que se você for por este caminho, as chances de seu filho voltar vivo diminuem muito.
- O que você quer dizer com isso? – Disse Rodrigo indignado – Que eu colocaria a vida de meu filho em perigo por vontade própria? Que eu seria o responsável pela morte dele?
- De modo algum, senhor Pompeu. Todos queremos o mesmo. Seu filho de volta, são e salvo, e lhe garanto que farei o possível e impossível para conseguir isto.
- Certo – Disse Rodrigo, tombando no banquinho da cozinha.
- Bom, preciso ir agora. Você tem meu telefone para qualquer emergência. E qualquer problema que seja, chame um dos policiais do lado de fora, ok?
- Ta – Disse Rodrigo acompanhando o detetive e o resto dos policiais para fora, para logo depois voltar à sala e abraçar sua esposa, que estava em prantos.

Jonas ficou apenas em pé, olhando os pais abraçados, seu rosto mostrava a dor que sentia e lá no fundo sabia que a culpa do irmão ter sumido era sua. Ele havia se atrasado para buscá-lo. A idéia de nunca mais ver o irmão encheu seus olhos de lágrimas.

Uma hora mais tarde, Rodrigo terminava de fazer uma xícara de chá para Martha e quando estava para levar a ela, ouviu o toque de seu celular. Rapidamente ele o tirou do bolso e atendeu. Não queria que Martha, nem Jonas escutassem. Muito menos os policiais do lado de fora. A voz do outro lado veio forte e fria:
- Como se sente agora, senhor Pompeu? – Disse a voz – Como se sente? Desesperado? Com medo? Num beco sem saída? Bem vindo ao grupo.
- Desgraçado, encosta um dedo no garoto e eu vou…
- Chega de ameaças, senhor Pompeu. Não é seu filho que eu quero e você sabe muito bem disso.
- O que você quer? É dinheiro? Quanto você quer? – Rodrigo mantinha a calma na voz, para não dar mais poder ao homem do outro lado da linha.
- Não quero dinheiro. Eu quero você, senhor Pompeu. Eu quero o merda que assassinou vários amigos meus a sangue frio.
- Assassinei quem? – Neste momento Rodrigo percebeu quem era do outro lado. O homem invisível do dia anterior. Não podia ser conseqüência o fato de ser atacado e no dia posterior o filho sumir. Mas não era seguro entregar o jogo no celular, ele podia estar gravando – Do que você está falando?
- Quem desconfiaria do rico e prestigioso homem de negócios? Mas sabe? Eu tenho um modo muito útil de descobrir certos segredos e agora eu quero você, senhor Pompeu. Cansei de seguir as regras. Para pegar homens como você, temos que quebrar certas regras. Sei que a policia está com você. Despiste-os. Eu saberei, e eu não estou blefando, se a policia vier junto.
- Vier junto para onde? – Rodrigo já entendia para onde aquela conversa estava indo, mas tinha que manter o personagem.
- Rua do ouvidor. Numero 135, daqui a 40 minutos – Um click.

Rodrigo desligou o celular e ficou olhando para a janela da cozinha, apenas observando o vento balançar as folhas de uma árvore. Um momento depois ele discou um numero no celular e uma voz feminina atendeu:
- Alô? – Disse a voz.
- Sou eu, Rodrigo Pompeu – Ele parou por um momento, voltando a observar a árvore e então retomou – Preciso de sua ajuda, agora.
- O que? Do que você…?
- Tem que ser rápido. Onde podemos nos encontrar agora? – Rodrigo falava rápido.
- Você quer vir aqui?
- Estou a caminho. Chame sua equipe e fique pronta – Imediatamente ele desligou.

Rodrigo pegou a xícara de chá e levou para sua esposa, que estava deitada na cama de casal, no quarto do segundo andar. Jonas estava trancado em seu quarto. Ele entregou o chá a ela, que estava meio grogue por causa dos calmantes que havia tomado.
- Querida, acabou leite e o pão. Eu vou ao mercado rapidinho, ok? Vou levar um dos policiais comigo e meu celular. Não quero que se preocupe comigo e muito menos que se levante desta cama, certo? Qualquer coisa chama o Jonas. Eu já volto – Ele beijou sua testa e saiu.

Pegou seu casaco e saiu pela porta, dando de cara com um dos policiais, que olhou para ele como se perguntasse o que ele estava fazendo:
- Tenho que ir ao mercado. Acabou o pão – Disse Rodrigo – Pode vir comigo, eu vou com o meu carro.

O policial pegou o radio e falou para o companheiro que estava nos fundos da casa:
- Sérgio, estou indo acompanhar o senhor Pompeu até o mercado. Cuide para que a esposa e o filho fiquem em segurança.
- Positivo – Respondeu o outro.

Os dois foram até o carro e entraram. Rodrigo deu a partida e saiu da garagem. Dirigia rapidamente quando o policial se voltou a ele:
- Não vá tão rápido, senhor Pompeu. Pode perder o controle do carro – E abriu um pequeno sorriso sem graça, logo o escondendo.
- Seu nome é Nogueira, não é? – Disse Rodrigo colocando uma das mãos no ombro do policial, enquanto dirigia com a outra.
- Sim, José Nogueira, senhor – Respondeu o policial solicito.
- Me desculpe, mas isso é um problema que eu preciso resolver sozinho. Espero que perdoe um pai desesperado – O policial olhou para ele sem entender, mas no mesmo instante uma pequena descarga de eletricidade passou da mão de Rodrigo para o corpo de José, que desmaiou na mesma hora.

Rodrigo esperou por uma rua sem pedestres por perto, diminuiu a velocidade, abriu a porta do carona e empurrou o policial para fora, fazendo-o cair estendido na calçada. Voltou a fechar a por e arrancou.
- Realmente sinto muito, José, mas esse problema é meu – Disse pisando no acelerador.

CONTINUA…

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