18 DE FEVEREIRO DE 1973
- Você sabe onde ele está? – Rodrigo se levantou indignado.
- Sim, sei. Mas antes quero lhe contar toda a história.
- Tem mais?
- Ah, sim. Muito mais. Um mês mais ou menos antes de eu sair do projeto começamos os testes em seres humanos. Nessa época eu ainda acreditava que o soro ia trazer paz e segurança a todos. Testamos o soro apenas em algumas pessoas escolhidas a dedo. Quatro para se exato. Um advogado negro, um estudante, uma policial e um militar de renome.
- Porque eles?- Perguntou Rodrigo, interessado.
- Houve um longo processo de escolha. Estávamos em fases de teste, então precisávamos de cobaias diferentes. Que nos mostrassem que tipos de variações poderiam ocorrer dependendo dos genes da pessoa. Depois de longo processo, escolhemos esses quatro. Todos voluntários.
- Mas porque eles?
- O advogado era negro, o estudante ainda não havia completado 18 anos, portanto bastante jovem, com o corpo ainda em formação. A policial por ser mulher. E o militar porque estava infectado.
- Infectado?
- Ele tinha a síndrome da imunodeficiência adquirida – Rodrigo ficou em silêncio, sem entender – Nas ruas estão chamando de doença dos gays. Eu prefiro não chamar assim. Sabe o que é isso?
- Não – Disse Rodrigo voltando a se sentar.
- É uma doença muito grave. Ataca agressivamente o sistema imunológico. Teve alguns casos na África nestes últimos anos. É uma doença consideravelmente nova para a ciência, mas já existe há vários anos, isso com certeza. Bom, essa doença nos interessou. Como o soro seria afetado pela doença. Por estas razões escolhemos esses quatro.
- E o que aconteceu com eles?
- O advogado desenvolveu o que chamamos de escudo. Nada penetrava em sua pele. Após estudos descobrimos que nada podia feri-lo também.
- Nada?
- Nada. Testamos tudo e ele não apresentou nenhuma variação no ritmo cardíaco, nem na pressão sangüínea. Nem um tiro a queima roupa conseguiu penetrar em sua nova couraça. Aparentemente ele era indestrutível. Assim, decidimos mante-lo sedado para futuros estudos. A policial não apresentou mudança alguma. Também a mantivemos para estudos. O estudante teve uma parada cardíaca e infelizmente não sobreviveu.
- Vocês mataram ele?
- De modo algum. O soro não oferece risco de vida, desde que todas as diretrizes sejam seguidas. O estudante esqueceu de nos mencionar o pequeno detalhe de que sofria do coração. Devido à idade nem cogitamos realizar testes cardíacos no garoto. Não foi nossa culpa, mas mesmo assim isso continuo com este peso na minha consciência. Não é algo que se esquece fácil.
- E o militar?
- O militar desenvolveu dois poderes. O de vôo e o de super força. Mas algo saiu errado e sua mente também foi alterada. Ele enlouqueceu. No inicio conseguimos sedá-lo, mas com o passar dos dias ele foi ficando cada vez mais imune aos medicamentos. Diariamente tínhamos que aumentar a dose, mas um dia ele conseguiu fugir. Matou três médicos para atingir esse objetivo. Foi logo depois deste fiasco que eu percebi que não estávamos no caminho certo. Ao invés de usar recursos para ir atrás do que criamos, recebi ordens para preparar 100 unidades do soro para serem administradas em soldados do exército. Foi aí que eu vi o que eles queriam com o meu soro. Foi aí que eu comecei a atrasar o projeto como pude e depois fugi com o que pude.
- E o que aconteceu com o militar?
- Ele destruiu um prédio – João parou por menos de dois segundos e retomou – E matou seus pais. Por isso quero te ajudar a se vingar, pois ao mesmo tempo estarei destruindo o monstro que ajudei a criar.
- Mas ele voa e você disse que é forte. Como eu posso me vingar dele?
- Se tornando mais forte que ele – Disse João mostrando um frasco com um liquido incolor dentro – Eu melhorei o soro. Agora é seguro. O que me diz? Você quer pegar o desgraçado que matou seus pais?
21 DE FEVEREIRO DE 1973
Seu coração está acelerado. Enquanto caminha ele consegue ouvir um surdo e contínuo som de batida dentro de seu peito. Ele está ansioso. Ele ergue o rosto e sente o sol em seu rosto. A sensação de calor era ótima. Desde a morte de seus pais, ele havia se fechado, se tornado uma pessoa fria. Seu coração havia congelado. Mas aquela sensação que o sol em seu rosto trazia era ótima, isso ele tinha que admitir. Sentia falta daquele calor.
Em minutos chegou ao local dado por João. O dia havia chegado. O dia em que ia ganhar a oportunidade de se vingar do homem que lhe tirou tudo que lhe importava, tudo que tinha. O movimento na rua estava grande. Rodrigo bateu na porta e momentos depois, João surgiu, abrindo a porta. Rodrigo entrou rapidamente, fechando a porta atrás de si. Seguiu João descendo dois lances de escadas até uma pequena sala no subsolo. João se virou para ele e sorriu:
- Bem vindo ao meu mais novo local de trabalho – Ele foi até uma mesinha no canto da sala e começou a mexer nos frascos – Está tudo preparado. O que você falou para seu tio?
- Que ia sair – Rodrigo deu uma nova olhada geral na sala – Ele não é meu pai.
- Não, realmente não é – Disse João, cobrindo a mesa de metal com um lençol – Já deixei tudo pronto. Agora só depende de você. Você está pronto?
- O homem que matou meus pais nem deve saber o nome das pessoas que matou naquele dia. Eles merecem ser lembrados.
- Com toda certeza, garoto. Ninguém deve ser esquecido pela história, por menor que seja seu período de vida.
- Não mesmo – Disse Rodrigo sentando na mesa, e olhando decidido para João – Estou pronto.
- Certo – Disse João pegando um frasco com um liquido incolor e injetando certa quantidade dentro de uma seringa – Você sentirá certa queimação no corpo. Não será confortável, mas tente agüentar, não demora muito a passar.
Rodrigo olhou preocupado para o rosto de João que apenas sorriu e disse:
- Vai valer a pena, rapaz. Não duvide disso – Ele pegou o braço de Rodrigo e injetou o liquido em sua veia.
- AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
XXXXXX
HOJE
Rodrigo para o carro e desce. Ainda está há um quarteirão da rua que havia marcado, mas preferia deixar o carro não tão próximo. Ia caminhando o resto do caminho. Seu coração bate acelerado dentro de seu peito. Ele tira um frasco no bolso do sobretudo e toma mais dois comprimidos. É noite de terça feira, portanto as ruas do centro estão com pouco movimento. Apenas alguns trombadinhas e uns engravatados que fizeram hora extra. Rodrigo vira a esquina e quando está há alguns passos do local combinado, seu celular toca. Ele rapidamente atende:
- Continue em frente e ao chegar na próxima esquina, jogue o celular fora e vire a esquerda. Entre na próxima porta a esquerda. Estará aberta. Não tente nada, estou de olho.
Rodrigo ouve o clique do outro lado da linha. O homem havia desligado. Ele fez exatamente o que o homem falou. Caminhou até a outra esquina, jogou o celular longe e virou a esquerda, para depois entrar por uma porta, no que parecia um prédio abandonado. O lugar estava escuro. Rodrigo caminhou pela escuridão até tropeçar no degrau de uma escada.
- M$%#@ – Praguejou.
Tateando ele começou a subir e no meio do caminho resolveu chamar pelo filho:
- Miguel – Gritou na escuridão – Miguel, você está me ouvindo?
Continuou subindo a escada e ao olhar para frente viu o que parecia ser uma fresta de luz. Caminhou lentamente em sua direção, mantendo os braços à frente, tateando. Ao chegar mais perto, viu que era uma porta fechada. Ele achou a maçaneta e girou, e foi então que viu o filho, com uma faca no pescoço e o homem que segurava a faca se posicionava logo atrás dele. Miguel chorava e o homem atrás dele mostrava um semblante de medo. Foi a primeira coisa que Rodrigo notou ao entrar. Rapidamente o homem alterou seu rosto para tentar mostrar certa convicção. Rodrigo levantou as mãos e caminhou lentamente para dentro do quarto, que estava com todas as janelas fechadas e uma forte luz amarela iluminando todo o ambiente. Marcos seguia Atentamente Rodrigo com o olhar, enquanto mantinha a faca no pescoço de Miguel.
- Fique calmo, ok? Não estou armado, e vim sozinho. Que tal deixar meu filho descer. Ele não precisa presenciar isso.
- Agora está se fazendo de vitima? – Marcos ficou invisível, deixando apenas a faca visível – Você nos mata e agora que está do outro lado, se faz de vitima? De mártir? Ah, você não vai ser mártir de porcaria nenhuma.
- Eu só quero o meu filho a salvo. Faça o que quiser comigo – Rodrigo mantinha as mãos levantadas.
- EU JÁ DISSE QUE VOCÊ NÃO VAI SER A P#%%@ DE UM MÁRTIR – Gritou Marcos, voltando a ficar visível – Como você acha que se sentiu o Antonio ou o Luiz?
- Eu não sei… – Rodrigo se mantinha se fazendo de desentendido.
- Arpão e Colméia. Era assim que eles eram conhecidos. Arpão e Colméia. Eles eram heróis e você matou os dois a sangue frio. Eles tinham família também.
- Olha, eu realmente não sei do que você está falando. Só solte meu filho, ok? Ele só tem cinco anos.
- Quem você acha que eu sou? Você? Eu sou um herói. Você é o vilão.
- Então deixe meu filho ir. Eu ficarei com você.
- Me dói fazer isso com o garoto, mas só assim para te atingir. Só assim pra chegar até você – Ele olhou nos olhos de Rodrigo – Eu estou fazendo um favor a ele te matando. A ele e todos os outros como eu, caçados por você, seu maluco. Você acha que eu ia deixar você vir atrás de mim e me matar sem lutar?
- Moço, você está me confundindo com alguém. Eu não sei quem você acha…
- Eu acho que você é o m#$%@ que vem perseguindo a gente e matando sem piedade nenhuma.
- Se tem alguém te perseguindo, me deixe ajudar, eu tenho dinheiro…
Neste momento Marcos apertou o pescoço de Miguel, que começou a gritar pelo pai.
- Meu Deus, não faça isso, por favor. Não faça isso.
- Então para com o teatrinho. Não quer que o filhinho descubra quem você realmente é?
- Você está assustando ele. Por favor, deixe ele ir.
- Ele só sai daqui do meu lado. E fique agradecido, porque isso é muito mais do que eu posso te prometer.
CASA DE RODRIGO
AGORA
Martha estava deitada na cama, tentando se acalmar. As lágrimas ainda caiam sem parar, quando ela ouviu o filho mais velho gritando por ela da sala. Assustada, ela se levantou rapidamente e correu até a sala, onde encontrou Jonas em pé em frente da televisão. Ela olhou assustada para o filho, que não tirava os olhos da tela da tv.
- O que foi? – Perguntou Martha.
- São eles – Ele disse apontando para a televisão – Miguel e papai. Eles estão na televisão.
- Ah meu Deus – Sussurrou Martha, se jogando em cima do sofá, já sem forças nas pernas.
CONDOMINÍO NA BARRA DA TIJUCA
AGORA
Luis, sentado na poltrona olhava sem acreditar para o que via na televisão. Marcos, seu amigo e companheiro de luta, estava fazendo uma criança de refém, colocando uma faca na garganta dela. E para piorar, um programa sensacionalista exibia as imagens ao vivo. Pelo que parecia, o pai do garoto estava com uma câmera escondida e que estava transmitindo as imagens. Quando viu Marcos ficar invisível, correu para o telefone e ligou rapidamente para ele. O telefone tocou e Luis pode ouvir o celular de Marcos tocando pela televisão. “Idiota”, pensou Luis enquanto esperava que o amigo atendesse. “Idiota, idiota, idiota”.
- Luis? – Perguntou Marcos do outro lado da linha.
- O que você pensa que está fazendo, seu idiota? – Luis estava enfurecido.
- Do que você está…?
- Ele tem uma câmera, sua besta. O Rio de Janeiro inteiro está vendo você segurando a P#$%@ de uma faca contra o pescoço de uma criança.
- O que? Ah, m**d… – Marcos imediatamente desligou o celular.
PRÉDIO ABANDONADO
CENTRO
AGORA
- Filho de uma… – Marcos jogou o celular na direção de Rodrigo – Você veio com uma câmera? Você filmou tudo isso? Você arriscou a vida do seu filho só pra…
- A sua cara está em todas as televisões da cidade. Acabou a brincadeira. Você não tem como escapar – Ao fundo ouviu sirenes de policia se aproximando – Acabou. Você não tem mais como se esconder. Solta o meu filho agora e vai pegar uma pena menor – Rodrigo mudou totalmente de postura, se mostrando confiante e no controle.
- Eu vou te matar – Marcos empurrou Miguel na direção de Rodrigo e imediatamente ficou invisível.
Rodrigo agarrou o filho e o abraçou. Miguel não parava de chorar. Ao fundo Rodrigo pôde ouvir passos na escada e logo em seguida diversos policiais entraram no cômodo onde eles se encontravam.
Rodrigo ficou agachado, abraçando o filho por mais alguns minutos. Enquanto a policia tentava do lado de fora do prédio controlar a multidão de repórteres que queriam uma declaração de Rodrigo e Miguel.
DOIS QUARTEIRÕES ADIANTE
5 MINUTOS DEPOIS
Marcos, sem ar, parou de correr e encostou-se a uma parede de tijolos de um prédio. A rua estava com pouca iluminação, portanto ele voltou a ficar visível para recuperar o ar.
- Ele te fez de bobo, não fez? – Perguntou uma voz.
Marcos rapidamente se tornou invisível e viu quando uma sombra começou a se aproximar pela rua escura.
- Fique calmo. Eu estou do seu lado. Ele também me fez de bobo, sabe? E é por isso que eu estou aqui. Ele precisa ser detido e precisa ser o mais rápido possível.
- E porque você ta falando isso comigo? – Marcos se mantinha invisível.
- Você não o quer morto pelo que ele fez aos seus amigos? Eu também. Eu vi o show de vocês pela televisão. Nós podemos pega-lo. Mas não sozinhos. Por isso eu pensei: Porque não fazermos uma aliança? Eu, você e mais algumas pessoas que compartilham nossos sentimentos. O que me diz?
A SEGUIR: SANGUE DERRAMADO
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