AGORA
- Depois de uma inacreditável e emocionante negociação com o seqüestrador, o executivo Rodrigo Lopes Pompeu conseguiu ter seu filho de volta sem um arranhão. O seqüestrador, como vemos nestas imagens, desapareceu e até o momento não foi encontrado – A apresentadora mostrou pela terceira vez a imagem de Marcos empurrando Miguel e ficando invisível na frente das câmeras – Muito se discutiu sobre o desaparecimento do seqüestrador na frente das câmera sem ser encontrada nenhuma explicação até o momento, mas a verdadeira questão continua sem ser discutida. Teria o sr. Lopes, como pai, agido corretamente botando a vida de seu filho em risco, desafiando seu captor? Estamos aqui com o chefe de policia do Estado do Rio de Janeiro, Antonio Augusto, que irá nos responder esta questão. Bom dia, Antonio. Muito obrigado pela sua presença.
- Eu que agradeço, Maria – Respondeu o policial com um sorriso – Bem, posso dizer com certeza que a policia não apóia em nenhuma circunstancia as ações de Rodrigo neste caso. Ele colocou sua vida em risco, a vida de seu filho e ainda por cima transmitiu ao vivo a negociação, dando oportunidade que crianças vissem aquelas cenas horríveis. Muitas crianças tiram seus exemplos da televisão e muitas começarão a achar que o que ele fez foi certo e se tiver a oportunidade também farão. Tenho certeza que Rodrigo não sabe o problema que causou com suas ações impensadas.
- Certo – Retomou a repórter – Mas ele teve sucesso. Recuperou o filho com vida e sem nenhum machucado.
- E se não tivesse? E se tivéssemos presenciado um assassinato ao vivo transmitido para todo o Estado do Rio? Não há nada que torne as ações de Rodrigo corretas. Ele arriscou a vida do filho ao tirar a policia do caso e tentar resolver com suas próprias mãos. Dessa vez tivemos sorte, mas as estatísticas mostram que as chances de um seqüestro resultar na morte do seqüestrado é 10 vezes maior quando a policia não é envolvida no caso. O problema é que pessoas como o Senhor Lopes, que tem bastante dinheiro, acham que podem fazer qualquer coisa. E a verdade é que não podem, temos regras, e temos pessoas preparadas e treinadas para tratar de casos deste tipo. Preparação e treinamento que o Sr Lopes não possui.
- E o Estado pretende tomar alguma medida legal contra Rodrigo ou o canal que transmitiu a negociação?
- O caso está sendo estudado pelas pessoas responsáveis.
- Certo – Disse a apresentadora, virando-se para a câmera – Vejamos o que o povo acha. Você acha que Rodrigo agiu certo ao tomar as rédeas da negociação, deixando a policia de lado? Oi, você está ao vivo.
- Oi, Maria, bom dia. Me chamo Geraldo e moro em Niterói. Queria dizer que apoio o que o Rodrigo fez, sim. A polícia não é de hoje que mostra sua total incompetência em proteger os cidadãos. Meu irmão, Jackson, morreu naquele incidente aqui em Niterói há alguns meses*, e onde estava a polícia nessa hora? Não veio um policial nos ajudar no meio de todas aquelas balas. Eu tive que enterrar meu irmão caçula porque a policia não conseguiu cumprir seu papel, que é nos proteger dos marginais. E agora eles reclamam que alguém resolveu agir por conta própria? Rodrigo ta certo, sim. Se tivesse deixado a policia cuidar, provavelmente seu filho teria morrido. Eu teria feito o mesmo que ele.
- Interessante ponto, Geraldo. Muito obrigado pela participação – Ela se virou para o chefe de policia – Você concorda que a policia está perdendo a guerra contra o crime e que não está mais dando conta?
- De maneira, alguma Maria. O caso de Niterói, citado por nosso colega, foi realmente uma tragédia, mas ele está incorreto ao afirmar que a polícia não apareceu. Um efetivo de 15 policiais compareceu ao local.
- Certo, muito obrigada pela entrevista – Disse a apresentadora, voltando a olhar para a câmera – Vamos fazer uma pausa e já retornamos com o tempo e esportes.
Rodrigo desligou a televisão e subiu as escadas, indo até o quarto de seu filho caçula, que desde que voltara, há dois dias, não saíra da cama. Martha estava sentada na cama ao seu lado, fazendo cafuné na cabeça do filho, que aparentemente dormia. Rodrigo se aproximou:
- Como ele está? – Perguntou
- Na mesma. Tem tido vários pesadelos, acorda suando frio toda hora e não tem fome. Eu estou preocupada, querido.
- Eu sei. Já chamei o doutor Sandro. Ele vai vir esta tarde para dar uma checada nele, ok? Mas ele passou por muita coisa, é compreensível que precise de um pouco mais de tempo – Ele deu um beijo na testa do filho – Vou fazer um café. Quer?
- Não. Eu tenho chá aqui – Disse ela apontando para uma jarra na mesinha de cabeceira.
- Ok, precisando de alguma coisa, me chama, ta?
- Pode deixar.
Rodrigo encostou a porta levemente e desceu as escadas. Quando estava cruzando a porta da cozinha, a campainha tocou. Ele se virou e foi até a porta, abrindo-a em seguida. Um homem negro, já com idade um pouco avançada, vestindo um impecável terno cinza e gravata vermelha se encontrava do outro lado.
- Olá, Rodrigo – Disse o Homem.
- Jorge? – Rodrigo não sorriu.
- Posso entrar?
Rodrigo saiu do caminho e Jorge passou, entrando na sala e se sentando na poltrona. Rodrigo o seguiu e se sentou no sofá, de frente para ele.
- Faz dois anos que não te vejo – Disse Rodrigo, sério – Algum problema?
- Eu que te pergunto isso, Rodrigo – Disse Jorge, carrancudo, se inclinando para frente – O que você pensa que está fazendo?
- O que você quer di…
- Deixa de babaquice que eu não sou nenhum desses idiotas com quem você negocia na sua empresa. Eu, assim, como a cidade inteira vi o pequeno showzinho ao vivo que você produziu.
- Ele pegou meu filho – Disse Rodrigo irritado.
- Isso está feito. Não foi por isso que eu vim aqui.
- Então porque você veio?
- Por uma coisa que o seqüestrador disse antes de ficar invisível. “Você nos mata e agora que está do outro lado, se faz de vitima?”, foi o que ele disse.
- E? – Rodrigo já sabia onde Jorge queria chegar.
- Você não parou, não é? Você escondeu de todo mundo, principalmente de mim. Não havia porque eu desconfiar de você. Você tinha criado uma família e parecia realmente feliz, parecia finalmente ter abandonado aquela idéia fixa. Nada apontava para você, nenhuma pista. Nada. Mas era você, não era? Você nunca parou.
- Eu não matei ninguém – Respondeu rapidamente Rodrigo.
- CHEGA – Gritou Jorge se levantando – Eu já disse que não sou um desses executivos idiotas com quem você está acostumado a conversar. Eu só quero te perguntar uma coisa. Como você acha que isso vai acabar?
- Do jeito que deve – Disse Rodrigo, olhando nos olhos de Jorge.
- Sabe? Na época, eu acreditei que você tinha entendido o que eu havia lhe dito. Mas pelo visto ele conseguiu te transformar num monstro igual a ele – Disse Jorge indo para a porta.
- EU NÃO SOU NADA COMO ELE. NADA – Gritou Rodrigo se levantando.
- Pare agora, ou nos veremos de lados opostos mais uma vez. E desta vez, eu não vou parar – Disse, fechando a porta atrás de si.
Rodrigo, com o rosto vermelho, ficou em pé, imóvel, apenas olhando a porta. No alto da escada, Jonas apenas escutava.
22 DE FEVEREIRO DE 1973
Ao abrir os olhos, não conseguia ver nada. Tudo estava embaçado. Ele tentou levantar as mãos para esfregar os olhos, mas algo impedia. Aos poucos sua visão foi voltando e ao olhar em volta ele se lembrou do que havia acontecido. Estava no laboratório de João. Este logo apareceu em seu campo de visão, sorrindo e com um copo de água na mão. Ele virou o copo na boca de Rodrigo, que bebia avidamente. Logo depois ele soltou os braços e pernas de Rodrigo, que se sentou à mesa de metal.
- Bom dia, bela adormecida – Disse João sorrindo – Como se sente?
- A cabeça ta doendo bastante e estou tendo uns calafrios – Disse Rodrigo, olhando para seu corpo, tentando notar algo diferente. Não havia nada – Não deu certo?
- Pelo contrário. De acordo com alguns testes preliminares que eu fiz enquanto você estava desacordado, tivemos ótimos progressos. Comprei um sanduíche para você. Coma e descanse um pouco. Depois faremos uns testes práticos – Disse entregando o sanduíche para Rodrigo e saindo.
Horas depois, os dois caminhavam pela orla da zona sul. Era uma noite fria, por isso havia poucas pessoas na areia. Eles pararam entre o posto 7 e 8. João ficou olhando as ondas, enquanto Rodrigo olhava para ele sem entender.
- O que tamos fazendo aqui? – Perguntou Rodrigo.
- Eu quero que se concentre naquele guarda sol, está vendo? Ali na frente – Disse João compenetrado – Concentre-se nele, imagine-o em sua mente.
- Mas pra que?
- Só faz isso.
Rodrigo olhou para o guarda sol e o imaginou em sua mente.
- Estenda as mãos em sua direção, não desvie – Disse João.
Rodrigo o obedeceu e logo começou a sentir um forte calafrio subir por sua espinha. Um calafrio como nunca sentira antes. Rapidamente ele passou para seus braços, mãos e finalmente ele viu uma luz branca brilhando em suas mãos. Na verdade a luz brilhante, era sua mão. Antes que pudesse notar, dois raios saíram de suas mãos, um de cada, acertando não o guarda sol, mas a água no fundo.
- hmm, a pontaria não é lá essas coisas, mas está ótimo para agora – Disse João voltando a caminhar.
- Como? Como que eu fiz isso? – Perguntou Rodrigo ficando ao seu lado.
- Não era isso que você queria? Uma chance? Eis a sua chance. Mas vem comigo, ainda tenho alguns testes para você.
Eles caminharam até uma praça perto da praia. João se sentou no balanço, enquanto Rodrigo não parava de olhar para as mãos.
- Relaxe, você se acostuma rápido. Agora eu quero que você feche os olhos e dê um pulo – Disse João
- Um pulo? – Rodrigo olhou para ele sem entender.
- Feche os olhos e salte. Não pense.
Rodrigo imediatamente fechou os olhos e saltou. Mas nada de anormal aconteceu. Por 1 segundo seus pés estiveram no ar e logo depois voltaram a aterrissar. João soltou um suspiro e se levantou, indo até Rodrigo e colocando as mãos em seu ombro.
- Ainda tenho outros testes para você, mas vamos descobrir seus dons aos poucos. Agora acho que está querendo encontrar o responsável pela morte de seus pais, não? – João sorriu para ele.
- As minhas mãos tão formigando – Disse Rodrigo preocupado.
- Não se preocupe. É normal, acredite em mim. Mas agora você vai precisar correr.
- Por quê?
- O homem que matou seus pais, não estará aqui amanhã. Hoje é sua ultima chance de pega-lo.
- Ele está aqui? No Rio? – Rodrigo olhava sério para João.
- Ele está num prédio em Copacabana. Poucos quilômetros daqui. Este é o endereço – João lhe deu um papel onde havia o endereço – Mas você vai precisar correr.
Rodrigo olhou para João por um momento e então correu para o outro lado. Para o lado de Copacabana. João viu Rodrigo começar a correr e então no segundo seguinte apenas um borrão e então não havia mais ninguém na sua frente. Ele deu um sorriso.
- Interessante.
Rodrigo não entendeu nada. Olhou para o lado e viu apenas um borrão continuo. Não havia mais prédios, pessoas, paredes, apenas um colorido borrão continuo. Suas mãos ainda latejavam. Assustado ele parou imediatamente de mexer as pernas e parou de correr. Para seu espanto, já estava quase no fim de Copacabana. Olhou em volta e viu algumas pessoas olhando estranhamente para ele. Pegou o pedaço de papel no bolso e viu novamente o endereço. Ficava a apenas dois quarteirões dali. Decidiu por caminhar o resto do caminho. Seu coração ainda batia forte dentro de seu peito. Desde que perdera os pais, imaginava como se sentiria quando estivesse frente a frente com o assassino e sempre imaginava tendo coragem de fazer o necessário. Mas agora duvidava desta certeza. Seu coração batia forte, suas pernas tremiam e sua mão não parava de formigar. Ele fechou as mãos e pensou nos pais. Por eles ele ia continuar. Por eles ele ia até o fim com aquilo.
Chegou até o prédio indicado no papel. Antes de entrar ele olhou para cima e focou o 7º andar. As luzes estavam acesas. O prédio era antigo, mas possuía porteiro, e obviamente não ia conseguir passar por ele sem autorização de um morador. Ele esperou alguns minutos até que um morador chegou, passando por ele e indo para a porta de entrada. Rodrigo o seguiu e entrou na portaria ao lado dele.
- Boa noite – Disse o morador para o porteiro.
- Boa noite – Repetiu Rodrigo, também ao porteiro.
- Boa noite – Disse o porteiro, sem tirar o olho da tela da pequena televisão que tinha na mesa.
Os dois entraram juntos no elevador e Rodrigo apertou o botão do sétimo, fazendo a porta se fechar. Segundos depois, o elevador voltou a abrir a porta. Rodrigo desceu no sétimo e caminhou até a porta certa. 703. Ele colocou o ouvido na porta e pôde ouvir o som baixo de uma televisão. Devagar ele girou a maçaneta e para sua surpresa a porta se abriu. Com o coração batendo no peito ele entrou. O som da televisão vinha do outro cômodo, ao lado. Provavelmente o quarto. Lentamente ele caminhou até o quarto e quando entrou, quase gritou. Deitado na cama estava um homem, mas seu estado era deplorável. Ele estava apenas com um short azul bastante velho, sua pele possuía diversas feridas, muitas abertas. Vários tufos de cabelo estavam espalhados pela cama, poucos se mantinham em sua cabeça. E por fim sua respiração era pesada.
Rodrigo colocou a mão na boca, sua vontade era vomitar ao ver aquela cena. O homem virou o rosto bastante machucado para ele e com dificuldades conseguiu dizer apenas:
- Me mate… Por Favor.
CONTINUA
* Leia Echelon 11 e 12 para saber mais
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