AGORA
Jonas lentamente se levantou do alto da escada e caminhou de volta para seu quarto, pensando no que o homem, que ele nunca vira na vida, havia dito. Alguma coisa estava errada.
No primeiro andar da casa, Rodrigo voltou a se jogar no sofá e ainda com o rosto vermelho voltou a ligar a televisão. Precisava se acalmar. O canal que vira antes agora passava o segmento de desenho animado. Pegando o controle ele começou a passar rapidamente pelos canais, tentando encontrar algo que lhe interessasse até que seu dedo parou no canal de noticias. A cena que viu lhe atingiu como um tiro. Era um tipo de coletiva de imprensa e estava focada num homem, que falava sobre os constantes perigos que o povo estava submetido nos dias de hoje. Após um curto discurso, ele chamou pelo grupo. A brigada extrema. Imediatamente um grupo de homens e mulheres, vestindo uniformes, subiu no palanque, ficando no centro do foco da câmera. Diversos flashes surgiam e um burburinho se iniciou. Um dos homens fantasiados deu alguns passos a frente e assumiu o microfone. Ele começou a falar e então a mascara que cobria seu rosto desapareceu, mostrando seu verdadeiro rosto ao país inteiro:
- Meu nome é Júlio Novaes de Souza… É um prazer conhecer vocês – Disse o homem olhando com um sorriso para a câmera – E esses são os demais membros da Brigada Extrema – A câmera foi focando um a um. *
Rodrigo, sentado no sofá, começou a apertar o controle tão forte que quase o quebrou. Com raiva, jogou o controle contra a parede e ficou olhando a imagem do novo grupo de super poderosos que surgia.
- Grupos. Eu disse que isso ia acontecer, Jorge. Eu disse – Ele passou as mãos no rosto – M#@$%
22 DE FEVEREIRO DE 1973
Algo parecido com pus saía da maioria de suas feridas. Seus olhos estavam cerrados, quase fechados. Ele levantou a mão alguns centímetros da cama e tentou estende-la na direção de Rodrigo, mas logo a deixou cair novamente no colchão. Seu rosto mostrava dor, mas a tristeza era mais evidente. Novamente ele tentou falar.
- por – Uma forte tosse impediu o resto da frase – Favor.
Rodrigo se mantinha parado na porta, sem saber o que fazer. De tudo que imaginou que poderia encontrar neste momento, nunca imaginou isso. Mal conseguia olhar para aquele homem.
- Quem – Rodrigo engoliu em seco – Quem fez isso com você? Cadê o homem que mora aqui?
- Eu – Disse o homem, voltando a respirar com dificuldades.
- Você o que? – Perguntou Rodrigo, sem se aproximar.
- Eu moro – Não conseguiu terminar a frase, sendo atacado por uma crise de tosse.
- Você mora aqui? Não, não pode ser. Deve ser um engano. Mais alguém mora aqui?
- Não – Sua voz era muito rouca.
- Você é o homem voador? – Rodrigo não podia acreditar. Aquele homem mal podia sair da cama. Como podia ter derrubado um prédio há uma semana?
- Dói muito, por favor. Me ajude a acabar com isso – Sua voz além de rouca, se mostrava cansada.
- Você derrubou o prédio na semana passada?
- Sim – Disse ele, fechando os olhos – Acabe com isso, por favor.
- Meus pais estavam naquele prédio – Sua mão começou a formigar.
- Sinto muito. Cof cof. Eu cometi um erro.
- Você assassinou aquelas pessoas – Fechou as mãos com força e suas mãos começaram a brilhar.
- vingue cof cof seus pais. Faça isso.
Rodrigo estendeu as mãos que já estavam envolta de uma luz branca. O homem na cama esboçou um pequeno sorriso e voltou a fechar os olhos.
- Você matou meus pais. Você acabou com a minha vida – Na hora Rodrigo fechou os olhos e sentiu o formigamento passar dos braços para as mãos e finalmente a descarga saindo de seu corpo.
Tudo aconteceu muito rápido. Rodrigo assim que emitiu a rajada, ouviu um grito de desespero vindo de fora do prédio e logo depois um grito de dor, vindo, desta vez, do homem na cama, que foi acertado em cheio pela rajada. Seu estomago, onde a rajada acertou, abriu e muito sangue começou a escorrer para a cama. O homem estava morto. Um milésimo de segundo depois, ouviu o som de vidro quebrando e ao olhar para o lado sentiu um forte empurrão, que o jogou agressivamente contra a parede. Rodrigo, tossiu de dor e ao olhar para ver o que o atingira, viu um homem, negro, alto, em pé, olhando para a cama. Seu rosto mostrava sua decepção.
- O que você fez, garoto? – Ele finalmente falou – VOCÊ SABE O QUE ACABOU DE FAZER? – Gritou, finalmente olhando para Rodrigo.
- Q-q-quem é você? – Perguntou Rodrigo tentando se levantar.
- Você tirou uma vida – O homem voltou a olhar para o corpo na cama.
- Você entrou pela janela? – Rodrigo finalmente viu os cacos de vidro no chão e a janela estourada – Como você entrou pela…?
- Assim como você eletrocutou Jamil. Onde ele está?
- Quem? – Rodrigo se levantava, assustado.
- Onde está o homem que te mandou aqui? Cadê o desgraçado do João? – O homem foi até Rodrigo, o pegou pelo colarinho da camisa e o ergueu do chão.
- Me solta – Seu coração batia acelerado e sua mão começou a formigar.
- Você foi usado, garoto. Cadê ele?
- Ele me ajudou a vingar meus pais. ME SOLTA – Rodrigo colocou uma das mãos no ombro do homem e soltou uma descarga em seu corpo. O homem mal se moveu.
- Isso não vai dar certo comigo – O homem carregou Rodrigo até a janela quebrada e o segurando, o colocou para o lado de fora. Rodrigo sentiu o vento em seu rosto. Olhou para baixo e viu as pessoas e carros, bem pequenos, passando na rua – Não acho que vôo foi uma de suas habilidades, não é? Você vai me ouvir.
- Ele matou meus pais.
- Não. Não matou – Disse o homem – Seus pais foram mortos pelo homem por trás de Jamil, por trás de mim e aparentemente por trás de você. Jamil apenas fez o que foi levado a fazer, como você acabou de fazer.
- Do que você ta falando? – Rodrigo parou de tentar se soltar, até porque não achava que podia voar.
- Ele criou Jamil. Ele me criou.
- Eu sei. Ele me falou que o governo enganou ele.
- A mesma historia do governo. Sempre o governo. Não há governo algum envolvido. Sempre foi João e apenas João – O homem mudava de feição ao mencionar aquele nome.
- Eu não acredito em você. Ele me ajudou, ele me ajudou a vingar meus pais.
- Ele te ajudou a se tornar um assassino e ainda fez você agradecê-lo por isso. É isso que ele faz. Nos usa para seu trabalho sujo.
- Não é verdade. Me deixa em paz.
- Não, você vai ouvir. Toda a história do projeto do governo, da guerra, tudo isso é mentira. Apenas para tornar a historia mais emocionante e mostrá-lo como um dos mocinhos. Nós realmente fomos voluntários para tomar a formula, assim como você deve ter sido. Mas na verdade fomos induzidos. Ele busca nosso maior desejo e trabalha em cima dele, para no fim das contas, nós fazermos a escolha de tomar a fórmula. Mas nós não passamos de cobaias. A fórmula é para ele, mas ainda não está perfeita, ainda apresenta efeitos colaterais e ele precisa de cobaias para testar as diversas variações, eliminando os problemas para finalmente chegar à fórmula perfeita, que lhe dará os poderes que deseja, sem cobrar nada por eles.
- Sem cobrar nada em troca?
- Os efeitos colaterais. Ele não quer se arriscar. Por isso nos usa para mapear os efeitos e poder corrigi-los. Que eu saiba fomos três voluntários. Eu fui o primeiro. Jamil foi o segundo. Ele tinha Aids antes da fórmula e queria a cura. Depois de receber a fórmula, em duas semanas a doença avançou o mesmo que avançaria em dez anos. Esse foi o preço que Jamil pagou pela formula. Depois foi Amanda. Ela tomou a formula dias após Jamil, não sei quantos ao certo. Depois que ela saiu, nunca mais a vi. Não sei o que aconteceu com ela, mas tenho certeza que ela teve efeitos colaterais, pois você acabou recebendo a fórmula também.
- Você não parece doente.
Imediatamente o homem estendeu a outra mão e a deixou esticada no ar. Ela começou a tremer.
- Eu fui ao médico ver o que era isso. Nunca havia tido. De acordo com ele é o primeiro estagio de uma doença chamada Parkinson. É uma doença que ataca seriamente o cérebro. Não há cura. Este foi meu preço.
- Então quer dizer que eu vou ter alguma coisa? – Rodrigo estava assustado.
- Esse é o preço por essa sua rajada.
- Não, isso não pode ser verdade.
- Ah, mas é. E fica pior, garoto. Porque agora você será caçado e exterminado. É assim que funciona as coisas.
- O que?
- Porque você acha que ele te colocou atrás de Jamil? Ele sempre manda uma cobaia atrás da anterior. A luta que culminou na queda do prédio de seus pais. Eu estava envolvido, e Jamil também. Jamil estava lá para me matar, pois acreditava que eu havia matado sua esposa. Mas na verdade, era apenas uma historia inventada por João para fazer Jamil me matar e fazer o serviço sujo por ele. É assim que funciona. Ele nos usa, tem seus resultados e usa outra pessoa para limpar seus rastros. Ele não quer competição, quando finalmente descobrir a fórmula perfeita. Por isso Jamil foi mandado atrás de mim, e agora você foi mandado atrás dele. E isso nos deixa uma pergunta, não é?
- Alguém virá atrás de mim? – Rodrigo estava branco.
- Exatamente. Agora me diga. Valeu a pena?
- Eu só queria vingar meus pais. Eu só queria… – Rodrigo começou a chorar
- Assim como Jamil só queria a cura para sua doença. Assim como eu só queria voltar a andar novamente. Ele usa nossas fraquezas e por isso eu preciso que você me diga onde ele está? Onde está João?
Rodrigo fechou os olhos e lágrimas voltaram a escorrer por seus olhos. O rosto dos pais passou na escuridão de sua mente. Seu coração parecia estar sendo apertado cada vez mais forte.
- O advogado, o militar, a policial e o estudante. Ele me falou de quatro cobaias. Ele – Rodrigo apontou para o homem na cama – ele era o militar, você é o advogado, a mulher era a policial e…
- Você é o estudante – Disse o homem, finalmente vendo que o garoto que segurava não passava de uma criança. Uma criança forçada a crescer rápido demais – Onde ele está, garoto?
- Então era ele mesmo – Disse Rodrigo olhando desesperado para o homem que agora o puxava para dentro do prédio novamente. Rodrigo caiu sentado no chão, encostado na parede – Ele estava lá, quando o prédio caiu. Ele estava lá, do meu lado. Ele planejou tudo isso.
- Onde ele está, garoto? – Perguntou o homem, com tristeza no rosto – Deixe-me impedir que mais alguém seja usado por ele.
- Ele usou a morte dos meus pais. Ele causou a morte dos meus pais. Ele planejou a morte dos meus pais.
- Sei o que você está pensando, garoto. Mas não deixe que a raiva e o desejo de vingança controle suas ações. Veja onde isso te levou. Eu cuido dele. Só me diga onde ele está. Prometo que ele não vai mais machucar ninguém.
- Ele está… – Rodrigo olhou para o corpo na cama – Rua Alice, é um sobrado antigo. Numero 116, eu acho.
- Certo. Eu cuido dele. Vá para casa.
- O que você vai fazer com ele? – Perguntou Rodrigo, olhando com os olhos vermelhos para o homem a sua frente.
- Ele enfrentará a lei, como deve ser. Será preso e pagará por todos os crimes. Pode ter certeza disso – O homem caminhou até a janela e olhou para fora.
- Ele merece morrer.
- Muitas pessoas já morreram, garoto. Nós vamos acabar com este ciclo. Morte só gera mais morte.
- ELE MATOU MEUS PAIS. ELE INTENCIONALMENTE PLANEJOU A MORTE DOS MEUS PAIS.
- E você acha que matá-lo é a única solução?- O homem olhou sério para Rodrigo.
- Garante que ele não vai fazer de novo. A prisão não vai impedir ele. Você sabe disso.
- Como você se sentiu ao eletrocutar Jamil – Ele apontou para o corpo de Jamil na cama – Na mesma hora você desejou não ter feito, não é? Pensar em matar alguém é muito diferente de fazê-lo. A morte de Jamil vai ficar com você para sempre. Feche os olhos e verá seu corpo. Durma e terá pesadelos com ele. Você não é mais a mesma pessoa, não depois disso. Assassinato não resolve nada. A pessoa que você matou poderia merecer, mas o fato de matá-la o torna tão ruim quanto ela. Uma pessoa ruim morre, e uma nova nasce imediatamente. Não se meta mais neste assunto, garoto.
- Tá – Disse Rodrigo, olhando para o chão.
- Deixe ele comigo. Agora vá para casa. Esse assunto já não lhe interessa mais – Dizendo isso, o homem p**a pela janela e corta o céu estrelado voando.
Rodrigo fica sentado no chão, encostado na parede, olhando para o homem que ele acabara de matar. Em sua cabeça ele ficava repetindo que o homem havia sido um dos responsáveis pela morte dos pais, merecia morrer. Ele botou as mãos no rosto e voltou a chorar. Estava sozinho, estava perdido, e o desespero estava aumentando cada vez mais. O que devia fazer? Não sabia. Os rostos de seus pais não sumiam de sua mente. Mas além deles, ele via o rosto do homem que planejou suas mortes. Em sua cabeça, repassava o filme do desastre. Ele parado vendo os dois homens voando, os homens indo na direção do prédio. O prédio desabando. A poeira vindo em sua direção. E um homem o tirando de lá. Um homem chamado João. O homem que planejou tudo aquilo. Seu punho esquerdo começou a formigar, enquanto ele o cerrava o mais forte que podia. A raiva aumentava quanto mais ele pensava naquele homem. O homem que destruiu sua vida. Gritando de raiva, ele soltou uma rajada na parede oposta, deixando-a com uma grande mancha negra. Aquele homem destruiu sua vida.
- Está na hora de destruir a dele – Ele começou a correr e num segundo já estava na calçada – Nada de prisão.
CONTINUA
* Ocorrido na mini “Brigada Extrema”.
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