22 DE DEZEMBRO DE 2006
Rodrigo se sentava à mesa e aproveitava um belo jantar, preparado por Martha, junto com toda sua família. Era raro aquele momento em que todos comiam juntos, as crianças sempre saiam cedo para os estudos e à noite Rodrigo fazia hora extra na empresa e costumava chegar quase de madrugada. Por isso sempre que conseguia juntar todo mundo em volta da mesa, conversando e rindo como uma verdadeira família, Martha dava graças a Deus.
Apesar de ser época de natal, Rodrigo ainda tinha muito trabalho a fazer. Após a janta, todos se levantaram da mesa. Jonas foi ajudar a mãe a lavar as louças. Miguel correu em direção à sala. Rodrigo deu um beijo na mulher e no filho mais velho e foi até a sala se despedir do filho mais novo. Miguel estava mexendo numa caixa cheia de enfeites de natal. À sua frente se encontrava a árvore de natal da família e ele estava colocando os enfeites nos galhos mais baixos. Rodrigo se aproximou e se agachou ao seu lado:
- Esta ficando linda – Disse Rodrigo, afanando a cabeça do filho.
- Mamãe disse que vai me ajudar quando acabar na cozinha. Ela vai me deixar colocar a estrela lá em cima – Ele disse olhando para o topo da arvore e apontando.
- Porque esperar? – Rodrigo remexeu na caixa e tirou uma grande estrela dourada de dentro – Quer colocar agora?
Miguel abriu um largo sorriso e levantou os bracinhos, esperando que o pai o pegasse e o levantasse. Rodrigo colocou a estrela na mão do filho e o levantou. Miguel esticou os braços e encaixou a estrela no topo da árvore. Rodrigo o desceu ao chão:
- Perfeito – Disse Rodrigo sorrindo.
- Quer me ajudar com os outros? – Miguel buscou um novo enfeite na caixa.
- Não sabe como, filhote, mas papai tem que ir trabalhar agora.
- Mas já é de noite.
- É, mas papai tem umas coisas para terminar. Mas amanhã é sábado e o que vamos fazer amanhã, mesmo? – Rodrigo fez uma cara de pensativo.
- Papai Noel, Papai Noel – Gritou Miguel animadíssimo.
- Exatamente. Vamos ao shopping e você vai sentar no colo do Papai Noel. Já sabe o que vai pedir?
- Sei… Mamãe escreveu minha carta para mim – Miguel fez menção de se levantar e buscar a carta.
- Perfeito. Então está combinado. Mas agora papai precisa ir. Dá um beijo? – Rodrigo se inclinou e Miguel lhe deu um beijo na bochecha.
Rodrigo se levantou, afanou novamente a cabeça de Miguel e saiu.
22 DE DEZEMBRO DE 2006
LAPA
Luan, 6 anos, caminha lentamente pelo corredor, no escuro. A casa está totalmente silenciosa. Seus pais dormem no quarto ao lado do seu. Luan desceu calmamente as escadas e entrou na sala. Ao invés de acender as luzes, continuou caminhando no escuro até chegar à grande cômoda de vime. Ele esticou o braço direito e pegou uma pequena caixa de madeira. Caminhou lentamente até a porta e ao abri-la, deu de cara com um homem grande, caucasiano, de cabelo e barba branca. O menino ficou imóvel na frente do homem, com os braços esticados, segurando a caixa. O homem sorriu, pegou a caixa das mãos de Luan e ficou apenas observando o garoto, que permanecia imóvel. Mas em sua cabeça Luan conseguia ouvir o homem:
- Muito bem, criança, agora feche a porta e volte a dormir. Ao acordar, você não se lembrará de nada disso.
Luan imediatamente se virou e fechou a porta, subindo as escadas em seguida e indo dormir. O homem do lado de fora foi andando até seu carro e no caminho abriu a caixa para ver seu conteúdo. Seus olhos brilharam ao ver todas aquelas jóias.
23 DE DEZEMBRO DE 2006
Rodrigo caminhava com Miguel, de mãos dadas, pelo shopping. O céu estava claro e o sol estava forte. Mesmo assim, o shopping estava cheio. Todo mundo fazendo compras de ultima hora. Rodrigo odiava lugares lotados, mas havia prometido ao filho que iriam ver o Papai Noel e ele não pretendia quebrar sua palavra. Logo Rodrigo viu uma grande aglomeração a sua frente e adivinhou na hora que era o Papai Noel. Eles caminharam até chegarem à fila de crianças que esperavam para sentar no colo do Papai Noel. Rodrigo vendo tudo aquilo se lembrou de quando seus pais o levaram para ver o Papai Noel. Também fora num shopping. Rodrigo se lembrava de sua felicidade ao falar com o bom velhinho e dos rostos alegres de seus pais olhando para ele. Eles até bateram uma foto dele no colo do Papai Noel. Agora esta foto estava no álbum de fotos, junto com todas as outras fotos de seus pais. Aquela lembrança, ao invés de trazer dor, lhe trouxe certa felicidade, fazendo um pequeno sorriso brotar em seu rosto.
Depois de quase 30 minutos na fila, chegou a vez de Miguel. Ele correu até Papai Noel e saltou no seu colo. Rodrigo viu o rosto de felicidade de Miguel quando o bom velhinho falou com ele. Miguel tirou um pedaço de papel do bolso e entregou ao Papai Noel. O homem deu um largo sorriso e ficou olhando para Miguel. Rodrigo estranhou o fato de os dois ficarem quietos por vários segundos, mas deixou a sensação de lado. Pegou a câmera, que Martha lhe dera, e tirou uma foto de Miguel no colo do Papai Noel. Martha lhe ameaçara, dizendo que não voltaria a entrar em casa se não tirasse a foto. E Rodrigo aprendera nos 15 anos de casamento que não era seguro desafiar aquela mulher.
O Papai Noel colocou a carta de Miguel no bolso do casaco vermelho. Miguel saltou do colo dele e caminhou até Rodrigo, que guardava a máquina. Ele apresentava um sorriso que ia de um canto a outro do rosto.
- E aí? Como foi? – Perguntou Rodrigo pegando sua mão e começando a caminhar para a saída do shopping.
- Ele perguntou se eu fui um bom garoto. Eu disse sim. Aí ele disse que eu ia ganhar tudo o que queria – O sorriso continuava em seu rosto.
- Se ele disse… – Rodrigo sorriu de volta para o filho e os dois saíram do shopping.
23 DE DEZEMBRO DE 2006
NOITE
Rodrigo acordou morrendo de sede. A noite estava quente e o ar condicionado não estava adiantando. Ele se levantou e enquanto caminhava pelo corredor ouviu o som da porta se abrindo. Ele acelerou o passo e ao entrar na sala viu Miguel na frente da porta imóvel e na sua frente um homem gordo, vestido de Papai Noel, barba e cabelos brancos. Rodrigo viu quando ele pegou algo das mãos de Miguel e neste momento correu para a porta.
- O que está acontecendo aqui? – Perguntou Rodrigo se agachando e olhando para seu filho, que se mantinha imóvel e mal piscando os olhos – Miguel? – Ele chacoalhou o filho, mas este continuou no transe.
Rodrigo se levantou e se virou para fora, vendo o homem olhando fixamente para ele. Nesse momento ele começou a ouvir uma voz sussurrando em sua cabeça. Obviamente era a voz do homem a sua frente, mas seus lábios não se mexiam. Rodrigo imediatamente colocou a mão no ombro do homem e disse:
- Você não sabe o que fez – E imediatamente soltou uma descarga de eletricidade no corpo do homem fazendo-o tombar no chão quase que imediatamente.
Rapidamente Rodrigo fechou a porta e agachou ao lado do filho que saia do transe naquele momento.
- Tudo bem aí, garotão? – Perguntou Rodrigo sorrindo.
- Ahn? Onde eu to? – Miguel parecia com sono e desorientado.
- Você estava andando dormindo. Mas ta tudo bem, vamos voltar para cama?
Rodrigo levou seu filho pelas mãos até sua cama e o cobriu, lhe dando um beijo na testa e logo depois saindo. Foi ao seu quarto, pegou uma roupa, vestiu, sem acordar Martha, e foi até a entrada da casa, onde encontrou o homem, ainda desacordado no chão. Ninguém passava pela rua, já passavam das 3 da manhã. Rodrigo pegou o homem pelos braços e o puxou até o carro estacionado na frente. Ele abriu o carro e jogou o homem no banco traseiro. Entrou no carro e arrancou em frente.
Uma música baixa tocava ao fundo. O homem foi acordando lentamente. Ao abrir os olhos, percebeu que tudo girava à sua frente. Ele tentava pensar, mas não conseguia, tudo surgia desconexo. Ele se concentrou na musica que ouvia. Alguns segundos ouvindo e percebeu que era uma musica natalina. Ele fechou os olhos, pois estava quase vomitando. Ele tentou se mover, mas nenhuma parte de seu corpo respondeu. Só conseguia mover a cabeça. Ouviu um som de rodinhas metálicas no chão e então ouviu uma voz que parecia estar longe:
- Abra os olhos.
O homem abriu os olhos e viu um homem a sua frente. Não conseguia ver o que estava ao seu lado, mas sabia que o borrão na sua frente era o corpo de um homem. Imediatamente uma luz extremamente forte iluminou seu rosto. Seus olhos arderam e se fecharam imediatamente. Ele deu um grito. Rodrigo estava a sua frente, com um holofote ao seu lado. O homem a sua frente, estava totalmente vestido de Papai Noel, com roupa, barba, tudo. Ele gemia baixinho, coisas desconexas, que não faziam muito sentido. Rodrigo desligou o holofote.
- Que tipo de homem se utiliza de uma figura de fantasia voltada para crianças para roubar? – Rodrigo tinha um tom de voz forte.
- Gira – Disse o homem, com voz mole – Tudo gira.
- Sim, eu lhe dei um pequeno coquetel com alguns tranqüilizantes e alguns alucinógenos. Você não conseguirá se concentrar e assim não vai conseguir usar seu poder da mente. E também lhe dei uma certa dose de lidocaina, o que lhe impossibilitará de se mover por algumas horas.
- Po-por favor – A cabeça pendia de um lado para outro. Ele não conseguia sustentá-la.
- Como se atreve a invadir a mente de crianças, crianças inocentes, ingênuas e usá-las para seus fins pérfidos, sem se importar em como isso as afeta – Ao fundo tocava “Sinos de Belém”.
- Desculpe, eu jur… – O homem não conseguiu completar a frase. Soltou um gemido.
- Quem está rindo agora, hein? – Rodrigo foi até o homem e buscou no bolso da jaqueta vermelha, de onde tirou um pedaço de papel. Uma carta. Afastou-se e de sua mão saiu um raio que atingiu em cheio o homem imóvel na cadeira – Bem, quem diria que um dia eu mataria Papai Noel?
24 DE NOVEMBRO
CEIA DE NATAL
A família toda se reuniu na sala, onde se encontrava a árvore, já totalmente enfeitada. A mãe e os irmãos de Martha haviam trazido alguns presentes. As crianças olhavam fixamente para a árvore, onde ao seu pé se encontravam os presentes. Rodrigo foi até a arvore e pegou o primeiro presente. Chacoalhou, colocou o ouvido no embrulho e disse:
- Esse é dá vovó para o Miguel – Ele deu uma grande ênfase no nome do filho.
Miguel correu até o pai e arrancou o pacote de suas mãos. Em segundos trucidou o embrulho, mas logo seu sorriso diminuiu ao ver o que havia dentro.
- Meias – Disse Miguel desanimado.
- Gostou, querido? São a sua cara – Disse a avó da poltrona, sorrindo.
- Brigado, vovó – Disse Miguel colocando as meias no chão e voltando a olhar a arvore.
- Bom – Disse Rodrigo pegando um novo pacote – Esse aqui, deixa eu ver, esse aqui é do Papai Noel para Miguel – Outra vez a grande ênfase no nome de Miguel.
Imitando a primeira vez o garoto correu até o pai, arrancou o pacote de suas mãos e trucidou o embrulho. Mas desta vez seu sorriso se manteve. Era exatamente o que havia pedido em sua carta. Um carrinho de controle remoto igualzinho o que havia visto na loja do outro lado da esquina. Ele deu um grito de alegria e já foi abrindo a caixa.
- Acho que ele gostou mais do que das meias – Disse a avó, comentando com Jonas.
- É o que parece, né? Você por acaso também não achou meias com a minha cara, né? – Perguntou Jonas com certo deboche.
- Não, para você eu comprei um lindo gorro – Disse a avó, logo gargalhando – São a sua cara.
Depois de todos os presentes distribuídos, Rodrigo levou Miguel para a cama, enquanto os outros limpavam tudo. Rodrigo cobriu o filho e sentou ao seu lado na cama:
- Feliz com os presentes? – Perguntou Rodrigo.
- Ahã – Assentiu Miguel – O Papai Noel disse que ia me dar o carrinho e me deu mesmo. Ele é muito legal, não é?
- Muito – Disse Rodrigo, dando um beijo na testa do filho e indo para a porta – Feliz natal, garotão.
- Feliz natal, pai.
Quando Rodrigo estava fechando a porta, Miguel o chamou:
- Pai – Gritou Miguel – Pai, ano que vem podemos ir visitar ele de novo?
- É claro, querido. Mas ano que vem vamos tentar em outro shopping, sim? – Disse Rodrigo sorrindo e fechando a porta, deixando Miguel sem entender.
FELIZ NATAL A TODOS! E NÃO MATEM O PAPAI NOEL!!!!
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