“Meu nome é Gomez… Ramiro Gomez… Puxa… Eu não pensei que me apresentar assim soaria tão babaca… Sim… Desculpe padre Raven… Vou seguir…
Continuando… Eu estava em casa… Havia sido despedido não fazia nem três horas e estava… Hã… Criando coragem para encarar minha mulher e filha… Elas estavam na casa da minha sogra quando tudo aconteceu…
Eu não vi o céu mudar de cor, nem nada, mas o canal onde eu estava assistindo a mais uma reportagem sobre o que aconteceu em Israel, saiu do ar de repente… Então eu acabei indo arrumar a bagunça que eu fiz e nem dei bola para os gritos que eu tinha começado a ouvir, que pareciam estar vindo da rua.
De repente ouvi uma batida na porta… Hã… Aqui eu acho que vou fazer uma confissão padre… Eu… Bem… Como eu trabalhava à noite e ficava o dia inteiro em casa, com minha mulher fora, no trabalho… Hã… Ela não estava… Como direi… Me procurando muito ultimamente, se é que me entendem… Foi quando eu vi uma nova vizinha se mudando… Ela era linda e, depois que eu a ajudei na mudança ela me ofereceu uma cerveja… Papo vai… Papo vem… Bom, vocês imaginam o que aconteceu né?
Então… Voltando… Ouvi umas batidinhas na porta, estava mais para alguém arrastando as mãos na porta e logo pensei que seria a Mary… Era assim que minha vizinha gostava que eu a chamasse… Fui atender a porta decidido a por um fim naquilo, eu não podia mais enganar minha esposa, né? Desempregado, sem poder ajudar com as despesas da casa… Trair minha mulher já não era mais uma opção que eu queria encarar… Já estava me sentindo mal demais comigo mesmo…
Foi quando o mundo desabou para mim…
Assim que eu abri a porta dei de cara com a Mary, mas ela estava com a pele pálida, os olhos pareciam leitosos… Eu imaginei que ela devia estar passando mal, mas quando abri a porta vi que metade do braço direito dela estava faltando!
Ela jogou o corpo com tudo na porta e caímos os dois no chão da minha sala, mal consegui segurar a cabeça da Mary, enquanto ela tentava me morder como uma louca.
Gritei prá ela, tentei empurrar, mas nada adiantava… Foi quando eu escutei uns barulhos esquisitos pro lado de fora do meu apartamento que eu consegui forças prá jogar a Mary longe e me trancar quando eu vi um monte desses… Desses… Ay caramba… Não consigo falar zumbis ou outra coisa sem me achar um idiota…
Certo… Desculpe padre… É que a situação é tão doida que eu… Sim… Vou continuar…
Eu fechei a porta com todos os trincos que eu pude, depois ainda arrastei uma estante e encontrei lá prá ter certeza de que ninguém ia conseguir entrar… Peguei o telefone em seguida e tentei ligar prá minha mulher, mas a linha tava muda…
Acabei caindo no sofá e acho que desmaiei ou dormi mesmo, quando a adrenalina finalmente abaixou… Quando eu acordei percebi que não tinha mais nem energia elétrica… Consegui chegar até o olho mágico da minha porta e não vi mais nenhum monstro do lado de fora, fui até a janela e fiz o mesmo… Nada… Mas foi quando eu reparei no céu.
Nunca fui de rezar padre Raven… Deus é testemunha de que eu não fui o melhor dos homens, mas naquele instante rezei todas as orações que eu lembrava que minha avó tinha me ensinado.
Depois, quando me recuperei e tentei inutilmente o telefone mais uma vez, resolvi que tinha de sair de casa e ir procurar minha família. Vesti o máximo de roupas que eu pude, o que me cobrisse a maior parte do corpo, afinal eu já tinha visto um ou dois filmes de zumbis prá saber que uma mordida e eu já era… Peguei a arma que eu achei que nunca ia usar e arrastei o mais silencioso quanto era possível a estante.
Abri a porta bem devagar, sem fazer nenhum barulho, eu já fazia isso bem por causa das horas em que eu chegava em casa, e olhei o corredor… Assim que vi que estava vazio eu sai e, nem sei por que, tranquei a porta antes de ir na direção das escadas.
A sorte é que eu morava no segundo andar… Assim que cheguei no primeiro degrau ouvi alguma coisa correndo atrás de mim e desci as escadas como vento!
Quando finalmente sai do prédio eu tranquei as portas e vi quando alguns monstros bateram nela, tentando sair desesperadamente…
Fui andando devagar, com medo de qualquer barulho que eu ouvisse e, graças a Deus, consegui chegar na casa da minha sogra sem topar com nenhum dos bichos… Acho que eles estavam em áreas mais populosas…
Quando abri a porta, da casa dela, chamando o nome da minha sogra, o que veio na minha direção foi um monstro na forma dela, com a bocarra cheia de sangue, tentando me morder… Preciso confessar aqui que não me senti mal quando dei dois tiras na cara dela, fazendo com que ela caísse dura no chão… Nunca tinha ido com a cara da velha… Hã… Desculpe padre…
Meu momento de alívio acabou quando eu fui vasculhar o resto da casa e… E-eu… A-achei os restos da… Elas e-estavam… E-eu…
Por favor… Vou parar por aqui… O que interessa de verdade é que andei a esmo até que fui encontrado pelo padre Raven e trazido até a igreja… E-eu… Chega… Não posso mais…

Volume 4. Edição # 1.
Después de la tempestad. Comienzo.
Por João Norberto da Silva.
Ciudad de Los Muertos alguns dias depois da batalha que quase destruiu tudo o que Mortalha tanto se esforçou em “construir”.
- O pessoal fica sempre perguntando por que você não entra minha filha…
- Não sou sua filha, padre, na verdade não sou filha de ninguém…
O padre Raven novamente subia até a torre do sino da igreja, o lugar que La Ceifadora aparentemente resolvera “morar” uma vez que ela mal conseguia pisar na escadaria da frente de lá. O religioso tentava ser o mais solícito possível, afinal era claro que eles teriam mais chance de sobrevivência com uma garota como aquela do lado deles.
- Isso não é verdade, minha filha… Deus…
- Onde estava Deus quando fizeram tudo aquilo comigo padre?!!!! Heim?!!! Onde Ele estava quando nossa cidade se transformou… – Ela fez um largo gesto com a mão, mostrando a vista que ambos tinham de lá onde estavam. – Nisso?
Vendo que estava vencido, ao menos nessa discussão, o padre Raven se afasta silenciosamente, deixando a Ceifadora com lágrimas nos olhos, um tanto quanto arrependida por sua rispidez. Ela não consegue deixar de notar, no entanto, como o religioso observa pensativo um grupo de zumbis que permanece ao lado da igreja, o único grupo, uma vez que todos os demais monstros se afastaram ao perceber que não podiam entrar na igreja.
Ela então fecha os olhos, limpa as lágrimas com as costas das mãos e volta seu olhar na direção do prédio de onde Mortalha governa a Ciudad de los Muertos, algumas janelas ainda expiravam grossas colunas de fumaça, o que leva a garota a se perguntar novamente o que teria acontecido e o que estaria acontecendo naquele exato momento com sua inimiga.
La Muerte Rubra. Nos aposentos da Mortalha.
- Como é que é?
- Exatamente minha cara… Meus estudos chegaram ao fim, bem como minha estadia em seus domínios…
- Mas meu caro Doutor Zork… Eu esperava alguma compensação por você não ter vindo me ajudar quando aquele desgraçado… – Nesse momento ela pega um coração de dentro de uma tigela próxima e o joga com força fazendo o órgão se espatifar contra a prisão do perigoso Barthez. – Esse nojento quase me matou!! Pode acreditar nisso?
- Na verdade houve um pouco de demora numa atitude como a que o tal cavalheiro tomou… Por mais incrível que pareça, errei os cálculos em um dia… Achei que ele chegaria um dia antes aqui e…
- Espere aí! Você já sabia dessa invasão e não me avisou? Ora seu… – A bruxa dispara uma rajada de energia contra seu “aliado”, mas é inútil, pois o mesmo está protegido por uma barreira de energia impenetrável. – Desgraçado…
- Na verdade eu já sei até quando você será derrubada minha cara… – Zork continua falando como se o ataque à sua pessoa não tivesse ocorrido. – Eu não me envolvi, pois as chances de você sair vitoriosa a essa pequena empreitada eram grandes, o que não fazia valer a pena abandonar meus estudos, ainda mais estando tão próximo de concluí-los, mas eu já aviso que chegará o dia em que a Ciudad cairá e eu não pretendo estar presente quando isso acontecer.
- Seu maldito homenzinho nojento…
- Não me canso de ouvir seu vocábulo enriquecedor, minha cara… – Mais xingamentos, e se olhar matasse, o cientista sabe que cairia morto naquele exato instante. – Bem… Noto quando minha presença já não é bem vinda… Em meu laboratório eu deixei a máquinas que continuarão a gerar o campo de força, bem como o teleportador, para o caso de você querer mandar seus “cidadãos” para outra parte do mundo. Com minha parte no acordo mantida eu me despeço, cara minha, que sua agonia seja suportável quando finalmente vier o golpe final…
Com essas palavras, o Doutor Zork aciona um aparelho que o teleporta, deixando para trás uma raivosa Mortalha, que fica a desfilar todos os palavrões que ela conhece.
Naquele momento La Ceifadora, cansada de ficar à toa, apenas imaginando o que poderia ter acontecido, se lança da torre da igreja, caindo rápido, mas tocando o solo com a delicadeza de uma ginasta olímpica. Ela permanece de braços abertos, como se esperasse os aplausos e, com tristeza, se lembra que provavelmente não veria a Olimpíada desse ano. Engraçado como ela só sentia falta disso nesse momento, mas logo ela diz para si mesma que, com tudo o que acontecera, era de se esperar que ela não tivesse tempo para pensar nessas coisas.
Ela fica séria então, olhando à sua volta para ver se havia algum zumbi próximo e logo em seguida estende a mão na direção de uma pilha de escombros ali perto. Sem aviso nenhum uma enorme foice sai voando e para a centímetros da palma dela.
Deixando a arma ao lado de seu corpo, La Ceifadora começa a caminhar na direção da casa de sua inimiga.
Enquanto isso, Mortalha desce de seus aposentos indo direto até uma das Maternidades-Açougue, o que ela considera sua melhor idéia, em meio a tantas “maravilhas” que criara nos últimos meses.
Ela logo se postou diante das salas de fecundação, onde os homens e mulheres poupados pela bruxa, passam o dia fazendo sexo sem parar, mas não tendo prazer nenhum nas relações. Os homens ficam esgotados, mas mesmo assim continuam até ejacular várias vezes, muitas das quais sendo expelido mais sangue do que esperma, mas mesmo assim, a cada ejaculação, as mulheres são fecundadas, têm sua gestação acelerada até o parto, quando seus filhos são arrancados delas e levados para as salas de encubação, de onde saem adultos e prontos para serem mandados para as ruas da Ciudad, onde os “súditos” da bruxa podem persegui-los para se alimentar.
Os recém-nascidos são agrupados num salão da parte térrea da Muerte Rubra e, assim que as enormes portas são abertas, eles são empurrados violentamente para as ruas, sendo quase que imediatamente cercados por grupos de zumbis famintos.
Enquanto as assustadas presas ganham as ruas da Ciudad, Mortalha não pode deixar de reparar num deles, um moreno alto, de corpo bem torneado, diferente do que a maioria do gado ficava ao sair das salas de encubação. Ao vê-lo de corpo inteiro, ao reparar bem em sua nudez à mostra, a qual ele, tendo a mente de um bebê, nem tentava esconder, a bruxa acaba se lembrando de tudo que deixou em sua antiga vida, quando abraçou sua condição de morta viva.
Sentindo um calor conhecido, porém quase esquecido, subir pelo seu corpo, fazendo com que ela se pergunte por que nunca havia sentido aquilo por um rapaz antes. Mortalha sobe o mais rápido que pode para seus aposentos, tira a roupa e decide aproveitar aquele momento, pois não sabia como, nem de onde poderia vir um novo ataque, mas segundo as palavras do doutor Zork, seu inimigos não tardariam a bater novamente em sua porta e momentos como aquele seriam extremamente raros dali por diante.
Enquanto isso, La Ceifadora limpa o suor que escorre por seu rosto com as costas de sua mão direita, enquanto deixa sua foice encostada numa parece próxima. Ela acabara de destruir um grupo de zumbis, eram mais de trinta monstros e, em meio a restos carbonizados ou simplesmente destroçados, a garota olha fixamente para a vitrine de uma loja esportiva semi-destruída que estava ali perto.
Vendo o estado deplorável em que se encontravam suas roupas após a breve luta, ou, como ela diz, massacre dos zumbis, La Ceifadora, assim como sua inimiga, é tomada por uma necessidade tão básica, mas que fora completamente esquecida por causa da espiral de eventos desastrosos em que se transformou sua vida.
Fazer compras. Principalmente se for de uma roupa nova e, melhor ainda, de graça.
Ela olha mais uma vez para a fachada da enorme loja de artigos esportivos e decide que ali ela encontraria, ao menos, roupas funcionais para as batalhas que ela tinha pela frente. As chances de conseguir uma roupa nova e bonita também a agradavam e ela decide que o confronto com sua inimiga teria de esperar um pouco mais.
Não muito longe dali, o único sobrevivente da “última fornada de gado” das Maternidades-açougue, justo aquele que mexera com Mortalha, corre, ainda que de forma desengonçada, afinal ele aprendera a andar fazia poucas horas, mas assim que viu o destino dos seus companheiros, o desespero e os instintos de sobrevivência falaram mais alto.
Enquanto existiam outros como ele ao seu redor, foi um pouco mais fácil escapar dos zumbis, mas agora ele está sozinho, mal entendendo o motivo da dor que sentia vir de baixo de seu corpo, ignorando totalmente o fato de que o chão estava ferindo e muito seus pés.
Ele agora anda mais devagar, aprendendo a usar seus sentidos para perceber se algum dos monstros estava por perto, afinal eles fediam muito e faziam barulhos característicos, facilmente percebidos em meio ao silêncio sepulcral da outrora vibrante cidade do México.
Ele pára por um momento, se escorando numa parede e erguendo o que ele não sabia que era seu pé, constatando que um deles verte uma quantidade generosa de algo viscoso, que ele nem faz idéia de ser sangue. O ar gelado da noite entra ardendo pelo seu nariz e pela boca, mas mesmo assim ele sente que precisa daquilo para continuar fugindo dos perseguidores.
De repente seus olhos se arregalam, ao ouvir os sons característicos dos monstros que o perseguiam. Apesar da dor aumentar ele começa a correr, procurando aumentar ao máximo a distância entre eles.
O homem olha desesperado para os lados, mesmo sem entender completamente o que estava acontecendo, ele sabe que se parar terá o mesmo fim que seus colegas e, desse modo, enquanto olha para trás, tentando ver se algum dos monstros estava próximo, ele termina por trombar com uma outra pessoa.
- Uau!! Que pedaço… Ou melhor… Que mau caminho inteiro!! – La Ceifadora acaba de sair da loja de artigos esportivos, trajando um novo uniforme feito de neoprene, o mesmo que os mergulhadores usam, um par de tênis de corrida e vários outros apetrechos que ela poderia vir a usar no lugar de sua foice. – O que um cara lindo como você tá fazendo pelado aqui e… UUUNNNFFF!!!
O homem, percebendo que a figura à sua frente não era um dos monstros, se joga na direção dela e a abraça começando a soluçar baixinho, tal qual uma criança com dores faria, quase derrubando a garota no processo, que precisa firmar os pés para não cair. Passado o susto inicial do ocorrido, ela tenta entender o que estava acontecendo:
- Hã… Ei… Calma garotão… Você… Hã… Tá se esfregando muito em mim e… Opa!
A garota acerta um tapa com violência no rosto do outro, que cai no chão com uma mão esfregando o local atingido e com a outra ele segura o que, até agora, parecia um peso morto entre suas pernas e agora estava maior, mesmo ele sem saber exatamente o motivo.
- Cê tá louco cabrón? Chegar desse jeito num é aceitável nem numa situação como a nossa e… Ei… Peraí…
Finalmente La Ceifadora percebe que há algo errado no modo como o rapaz se porta, era como se ele nada mais fosse que um bebê, ela se abaixa ao lado dele e faz um pouco de carinho em seu ombro, o que foi respondido imediatamente com um novo abraço, uma nova reação do corpo do outro e mais um tapa, deixando ele novamente gemendo baixinho no chão.
- Mas qual o seu problema afinal?
Como se em resposta à pergunta, um grupo de zumbis dobra uma esquina e, ao sentir o cheiro de sangue que vinha dos pés do homem caído, começam a correr na direção dos dois.La Ceifadora se coloca em posição de combate, enquanto o homem engatinha até ficar atrás dela, com os olhos cheios de terror.
- Podem vir monstros… – Mesmo estranhando as reações do homem atrás de si, a garota sabe que não era hora de perguntas, mas de ação. – Venham que minha foice tá doidinha prá arrebentar vocês!!!
- AAAHHHHHHHHH!!!!! – Longe dali, em seus aposentos, Mortalha cai na cama, quase desfalecida, mas com uma alegria sincera que não sentia há tempos. – Puxa… Pensei que nunca mais ia ficar assim… Ufa… – Ela olha demoradamente para a janela, que lhe proporcionava uma visão panorâmica da Ciudad. – É… Se ele ainda estiver vivo… Acho que vale a pena tentar…
E dito isso ela abre a janela e sai voando pela noite eterna da necrópole, cheia de desejo e luxúria, mal sabendo que não ia encontrar exatamente o que procurava.
Continua…
“Eu… Meu nome é… Ana… Ana Patrícia… Eu… Puxa… É mesmo difícil começar a falar daquele dia não é? Sim, Padre Raven, eu entendo o quanto é importante colocar isso prá fora… Prá nos conhecer melhor e tudo… Mas tudo foi tão horrível… Tá… Deixa só eu respirar fundo…
Pronto… Eu estava num supermercado com o Juan e o Esteban, meus dois filhos que vocês já conhecem e que devem tá brincando em algum lugar… Estávamos comprando a mistura, alguns quilos de carne para um ensopado. Eu estava vendo os preços das carnes enquanto meu filho mais velho, o Juan, me explicava como funcionava os frigoríficos dos supermercados.
Tudo começou como aqueles barulhos de multidão que ficam ao fundo num jogo de futebol… Meu marido sempre via esses jogos e… Por Dios… E-eu nem sei se ele ainda está vivo, se morreu, se virou um desses… Tudo bem… Eu… Posso continuar…
Então, o que começou com um barulhinho baixo logo se mostrou como sendo o supermercado sendo invadido pelos monstros e, como eles já tomavam toda a frente, era impossível sair por ali sem ser atacado… Fiquei perdida enquanto várias pessoas corriam ao nosso redor, tentando escapar, subindo em prateleiras e tudo mais…
Foi o Juan que nos salvou… Por mais incrível que pareça, ele teve cabeça fria o suficiente prá me pegar pela mão e guiar eu e Esteban na direção de um dos frigoríficos, desligando ele e nos levando lá prá dentro, fechando a porta atrás de nós, eu cheguei a reclamar com ele, mas assim que fechamos a porta, um dos monstros arrebentou a própria cabeça contra a janelinha…. Nunca vou esquecer daquela cara horrorosa…
O frio era o pior, mas logo começou a diminuir e nós três agüentamos, nos esquentando um ao outro, os sons que vinham do supermercado estavam abafados e mal chegavam a nós o que permitiu que as crianças permanecessem calmas… Pelo menos o mais calmas que era possível numa situação tão horrível… Nos mantivemos aquecidos como dava e, logo os dois caíam no sono e acordavam de tempos em tempos.
Assim que tudo ficou quieto eu os acordei… Esperei eles despertarem direito, os abracei e comecei a falar que teríamos de tentar sair logo… Eles foram tão corajosos… Sinto cada vez mais orgulho dos meus homenzinhos… Depois de algum tempo, vendo se nenhum dos monstros aparecia diante da janelinha, resolvemos abrir a porta um pouquinho e arriscar uma espiada para o lado de fora…
A imagem do mercado parecia ter saído de uma mistura de guerra e daqueles filmes de terror horríveis que são feitos hoje em dia, com restos de corpos espalhados, muito sangue espirrado pelas paredes e prateleiras, isso naquelas que tinham sobrado de pé…
Andamos com muito cuidado até a saída e não encontramos nenhum monstro… Quando saímos reparamos em como estava o céu e, eu não sei de onde tirei essa idéia, mandei os meninos encherem alguns carrinhos com tudo o que poderíamos levar no nosso carro.
Assim que cada um estava com um carrinho cheio fomos até onde estacionamos nosso carro e, por sorte, novamente não encontramos nenhum monstro, mas apenas até fecharmos as portas…
Aquilo veio sem nenhum aviso… Se lançou contra o vidro do meu lado, tentando me morder e nem percebia enquanto seus dentes eram destroçados… Gritei para meus filhos trancarem as portas deles, liguei o carro e partimos o mais rápido que podíamos dali.
Dirigi o melhor que pude, as ruas ainda estavam um caos, com vários carros destruídos e monstros que andavam de um lado para o outro, mas mesmo assim consegui me afastar do centro da confusão…
Infelizmente nunca chegamos até nossa casa… Quando me aproximei aqui da região da igreja, o local estava infestado de monstros, acho que todos vocês devem ter visto isso também…
No meio do desespero o Esteban viu o Padre Raven abrir as portas da igreja e não me perguntem como, mas eu consegui virar o carro até aqui e vim o mais rápido que pude… Parei a poucos metros da parede do lado da entrada e corri na direção do Padre…
Ele nos fez entrar e depois de horas chorando finalmente eu comecei a ouvir ele explicando que, por alguma razão, estávamos seguros aqui…
Fomos até o carro e tudo o que nós trouxemos do mercado ajudou nos primeiros meses… Mas logo foi necessário formar grupos para vasculhar ao nosso redor e trazer mais suprimentos…
Rezo todas as noites pelo pobre Antônio, meu marido… Não me permiti pensar muito nele até que nossos filhos estivessem em segurança, mas espero que ele tenha dado um jeito de ficar vivo…
Quando tudo isso acabar… E eu espero que acabe logo… Tomara que eu consiga encontrar com ele… E-eu preciso acreditar nisso prá continuar em f-frente… E-eu… É só isso mesmo que eu tinha prá contar… Com licença… Vou procurar meus filhos agora e tentar convencê-los de que tudo vai ficar bem…”
Arquivado em: Ciudad de los Muertos, Contos do UNF